* Este blog luta por uma sociedade mais igualitária e justa, pela democratização da informação, pela transparência no exercício do poder público e na defesa de questões sociais e ambientais.
* Aqui temos tolerância com a crítica, mas com o que não temos tolerância é com a mentira.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Para registro: A trampa do 11 de setembro



por Gustavo Gollo, no blog do Nassif


As evidências mais óbvias da tramoia surgem quando se atenta para a demolição da torre 7, a terceira a desmoronar naquele dia. À primeira vista, os choques dos aviões poderiam justificar a derrubada das outras duas torres, mas a terceira teria que ter caído em decorrência de um incêndio, fato inédito, inverossímil ante a informação de que a temperatura dos fogos de incêndios não é suficiente para derreter o aço.

A terceira torre foi implodida, conforme evidenciam a simetria e velocidade de sua queda, as explosões laterais vistas nos vídeos, antecedendo a queda, e os relatos de explosões sucessivas antecedendo imediatamente a implosão. O comentário do dono da torre, o mesmo que veio a receber bilhões de dólares pelo seguro do prédio, dizendo ter implodido a torre, e o cheiro de termite, substância capaz de derreter o aço, relatado por testemunhas, reforçam essa convicção.

A informação técnica adicional de que os aviões não são capazes de derrubar as torres, somadas às mesmas considerações anteriores sobre a possibilidade de incêndios as demolirem, confirma o fato da implosão das 3 torres.

O míssil sobre o pentágono, e não um avião, como relatado na farsa, configura o crime de ódio. Foram assassinados ali os que se opuseram à atrocidade.

O teatro armado consistiu cenário perfeito para a consecução de múltiplos assassinatos, todos eles encobertos por uma única farsa. A demonstração de poder resultante dessa chacina seria suficiente para calar até os mais ferrenhos oponentes da farsa. Pessoas muito poderosas foram eliminadas, 184 delas sucumbiram no pentágono. Outras tantas desapareceram, simplesmente (40% dos corpos não foram identificados).

Existem inúmeras evidências da farsa, quem assistir aos vídeos com o intuito de desvendar os fatos chegará às mesmas conclusões. Assistindo aos vídeos, tenha em mente que a expressão mágica “teoria da conspiração” tem o poder de transformar mentiras oficiais em dogmas. Basta associar tal rótulo a uma mentira descarada para torná-la inatacável.

O gênio do mal que arquitetou essa hecatombe bem poderia ser alcunhado “Coringa”, por seu senso de humor bizarro.

A grande lição desse episódio macabro é a constatação de estarmos vivendo sob o domínio de tais criaturas.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

A afronta da China e Rússia ao dólar



F. William Engdahl, New Eastern Outlook  - tradução Vila Vudu - publicado no ótimo blog do Alok


Pouco depois do fim da 2ª Guerra Mundial, o governo dos EUA, aconselhado pelos grandes bancos internacionais de Wall Street, projetou o que muitos interpretam erradamente como um novo padrão ouro. Na verdade, foi um padrão dólar, no qual todas as demais moedas dos países do Fundo Monetário Internacional fixaram o valor das respectivas moedas em relação ao dólar. Em troca, o dólar dos EUA foi ancorado ao ouro, num valor igual ao de 1/35 de uma onça de ouro. Ao mesmo tempo, Washington e Wall Street puderam impor um sistema pelo qual o Federal Reserve ficava com cerca de 75% de todo o ouro monetário mundial, como consequência da guerra e desenvolvimentos a ela relacionados. Bretton Woods estabeleceu o dólar, o qual então se tornou a moeda de reserva do comércio mundial, dos bancos centrais.


Agonia final de um padrão dólar defeituoso 

Pelo fim dos anos 1960s, com os déficits crescentes no orçamento dos EUA por causa dos custos da Guerra do Vietnã e outros gastos igualmente alucinados, o padrão dólar começou a deixar ver suas profundas falhas estruturais. A Europa Ocidental e o Japão recuperados já não precisavam de bilhões de dólares dos EUA para financiar reconstruções. A Alemanha e o Japão haviam-se tornado economias de exportação de classe mundial com mais alta eficiência que a manufatura norte-americana, por efeito da obsolescência crescente da indústria básica dos EUA, do aço a automóveis, e da infraestrutura básica. Washington então deveria ter desvalorizado significativamente o dólar frente ao ouro, para corrigir o crescente desequilíbrio no comércio mundial. Essa desvalorização do dólar teria estimulado os ganhos de exportação dos EUA e reduzido os desequilíbrios comerciais. Teria sido verdadeiro alento para a economia real dos EUA.

Mas para os bancos dos EUA o mesmo passo teria levado a grandes perdas. Então, em vez de fazer o que era dever deles, os governos Johnson e depois Nixon imprimiram mais dólares e, efeito disso, exportaram inflação para o mundo.

Os bancos centrais, especialmente da França e da Alemanha, reagiram à surdez de Washington exigindo o ouro do Fed dos EUA das reservas norte-americanas a $35 por onça do acordo de Bretton Woods de 1944. Em agosto de 1971, a troca de ouro por dólares norte-americanos inflados alcançou ponto crítico, e Nixon foi aconselhado por Paul Volcker, alto funcionário do Tesouro, a pôr abaixo o sistema de Bretton Woods.

Em 1973, Washington permitia o livre comércio do ouro, que já não era o lastro firme do dólar norte-americano. Em vez disso, um choque artificial do preço do petróleo em outubro 1973, que em meses elevou em mais de 400% o preço do petróleo, criou o que Henry Kissinger chamou então de "petrodólar".

O mundo precisava de petróleo para a economia. Washington, em negócio de 1975 com a monarquia saudita, determinou que a OPEP Árabe não vendesse sequer uma gota de seu petróleo ao mundo, se não em dólares norte-americanos. O valor do dólar subiu às alturas contra outras moedas como o marco alemão ou o yen japonês. Os bancos de Wall Street encheram as burras com depósitos em petrodólares. O cassino do dólar estava aberto e operando, e o resto do mundo estava sendo tungado por ele.

Em meu livro Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century [Deuses do Dinheiro: Wall Street e a Morte do Século Norte-americano], narro em detalhes o modo como grandes bancos internacionais em New York, como Chase, Citibank e Banco da América usaram petrodólares naquele momento para reciclar os lucros árabes da importação de petróleo pelos países em desenvolvimento durante os anos 1970s, lançando as sementes da chamada "Crise da Dívida do Terceiro Mundo". Curiosamente, foi o mesmo Paul Volcker, protegido de David Rockefeller e do Banco Chase Manhattan de Rockefeller, naquele momento, em outubro de 1979 era presidente do Federal Reserve, quem disparou a crise da dívida dos anos 1980s empurrando para a estratosfera as taxas de juros do Fed. Volcker disse que a operação visava a conter a inflação. Era mentira. A operação visava a salvar o dólar e os bancos de Wall Street.

Hoje, o dólar é fenômeno estranhíssimo, para dizer o mínimo. A partir de 1971, os EUA foram, de principal nação industrial do planeta, a casino de especulação gigante, movido a dívida.

Com as taxas de juros dos Fundos Fed entre zero e 1% durante os últimos nove anos – evento sem precedentes na história moderna – os grandes bancos de Wall Street, os mesmos cujos crimes financeiros e ganância assassina criaram a crise dos "subprimes" de 2007 e seu tsunami financeiro global de 2008, decidiram construir uma nova bolha especulativa.

Em vez de emprestar para cidades já intoxicadas de dívidas para infraestrutura urgentemente necessária ou outras vias produtivas da economia real, aqueles bancos criaram outra bolha colossal no mercado de ações. Grandes empresas usaram crédito barato para recomprar suas próprias ações, o que fez subir alucinadamente o preço das ações nas bolsas de valores, aumento alimentado por boatos e mitos sobre uma "recuperação da economia". O índice de ações das S&P-500 subiu 320% a partir do fim de 2008. Um fato é certo: o aumento daquelas ações não aconteceu 'porque' a economia dos EUA tivesse crescido 320%!...

Os lares norte-americanos ganham menos, em termos reais, de ano para ano, há décadas. Desde 1988 a renda doméstica média manteve-se estável, com inflação sempre crescente e renda real sempre decrescente. As famílias têm de emprestar mais e do que jamais antes em toda a história. A dívida do governo federal alcança inimagináveis $20 trilhões, sem fim à vista. A indústria norte-americana foi fechada e a produção 'exportada', mandada para fora, "deslocalizada" [ing.outsourced] é o eufemismo da hora. Deixada nos EUA, fica uma dívida monstro e uma apodrecida "economia de serviços", na qual milhões trabalham em dois, três empregos de período parcial, só para se manter à tona.

O único fator que mantém o dólar a salvo do colapso total são os militares e uma infinidade de falsas ONGs que os norte-americanos espalham pelo mundo, com a tarefa de facilitarem o saque da economia global.

Enquanto os truques sujos de Washington e as maquinações de Wall Street conseguiram criar crises das dimensões do que se viu na Eurozona em 2010, na qual a Grécia foi sacrificada, países com superávit comercial como China, Japão e depois a Rússia não tiveram alternativa que não fosse comprar mais e mais dívida do governo dos EUA – seguros do Tesouro –, usando com o grosso de seus respectivos superávits comerciais em dólares. Washington e Wall Street sorriram. Podiam imprimir quantidades infinitas de dólares lastreados em nada mais valioso que jatos F-16s e tanques Abrams. Comprando a dívida norte-americana, China, Rússia e outros países detentores de ações em dólares financiaram, na verdade, as guerras que os EUA fizeram contra aqueles mesmos países. Naquele momento, simplesmente não tinham alternativas viáveis.


Surge a alternativa viável 

Agora, por ironia, duas das economias estrangeiras que garantiram ao dólar sobrevida artificial além de 1989 – Rússia e China – está cuidadosamente expondo essa mais temida alternativa, uma moeda internacional viável, com lastro em ouro e potencialmente várias moedas similares que podem deslocar o papel injustamente hegemônico que o dólar tem hoje.

Já há vários anos, ambas, a Federação Russa e a República Popular da China vêm comprando enormes quantias de ouro, em grande parte para acrescentar às moedas de reserva dos respectivos bancos centrais as quais sem isso seriam tipicamente dólar ou euro. Até recentemente, ainda não era muito claro porque os dois países faziam o que faziam.

Durante vários anos soube-se nos mercados de ouro que os maiores compradores de ouro físico eram os bancos centrais de China e Rússia. Mas não se via com clareza a profundidade da estratégia que houvesse por trás de simplesmente construir confiança nas moedas, em tempo de sanções econômicas e palavras belicosas emitidas por Washington, de guerra comercial.

Agora tudo já aparece claramente.

China e Rússia, acompanhadas provavelmente por seus principais parceiros comerciais nos RICS (Rússia, Índia, China, África do Sul)*, e também pelos países seus parceiros eurasianos da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) estão bem próximas de completar a arquitetura funcional de uma nova alternativa monetária a um mundo do dólar.

Atualmente, além dos membros fundadores China e Rússia, são membros plenos da OCX o Cazaquistão, o Quirguistão, o Tadjiquistão, o Uzbequistão e, mais recentemente, Índia e Paquistão. É população total de mais de 3 bilhões de pessoas, cerca de 42% da população do planeta, reunidas em cooperação econômica e política planificada e pacífica.

Se se acrescentam aos já membros da OCX também os países em posição de Observadores Oficiais – Afeganistão, Belarus, Irã e Mongólia, estados com desejo já manifesto de unir-se formalmente como membros plenos, basta examinar o mapa mundial para ver o impressionante potencial da emergente OCX. Turquia é Parceira de Diálogo formal, considerando a possibilidade de integrar-se à OCX, bem como o Sri Lanka, a Armênia, o Azerbaijão, o Cambodia e o Nepal. Dito em termos simples, é organização gigantesca.


"Iniciativa Cinturão e Estrada" e Rota da Seda com lastro ouro 


Até recentemente, os think-tanks de Washington e do governo dos EUA menosprezaram instituições eurasianas emergentes como a OCX. Diferente dos RICS, que não é grupo de países contínuos em vasta massa terrestre, o grupo da OCX forma uma entidade geográfica contínua chamada Eurásia. Quando o presidente chinês Xi Jinping propôs a criação do que foi então chamado de Nova Rota da Seda Econômica, em reunião no Cazaquistão em 2013, pouco no ocidente levaram a sério a proposição. Hoje, o nome oficial é Iniciativa Cinturão, Estrada (ICE). E hoje o mundo já começa a levar muito a sério o objetivo da ICE.

Claro que a diplomacia econômica da China, como da Rússia e de seu grupo de países da União Econômica Eurasiana, tem muito a ver com construir ferrovias para trens de alta velocidade, portos, infraestrutura de energia e vasto novo mercado o qual, em menos de uma década ao ritmo em que está andando, já terá ofuscado qualquer potencial econômico que ainda reste aos países arqueados sob dívidas gigantes e estagnados da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento, OCED, da União Europeia e da América do Norte.

Até agora, embora vitalmente necessária, ainda não era clara alguma estratégia para libertar do dólar as nações da Eurásia, libertando-as também de crescente vulnerabilidade a sanções pelo Tesouro dos EUA e da guerra financeira baseada naquela dependência do dólar. Isso, precisamente é o que está começando a surgir.

Na reunião de cúpula dos RICS dia 5 de setembro em Xiamen, China, o presidente Putin da Rússia enunciou em termos simples e muito claros a visão russa do mundo econômico atual. Disse ele:


"A Rússia partilha as preocupações dos países RICS relacionadas à arquitetura econômica e financeira mundial, injusta e desigual, que não dá a consideração devida ao peso das economias emergentes. Estamos prontos a trabalhar com nossos parceiros para promover reformas na regulação financeira internacional, para superar a dominação excessiva do número limitado de moedas de reserva."


Que eu saiba, o presidente Putin jamais foi tão perfeitamente claro sobre moedas. Ponha-se essa fala no contexto da recente arquitetura financeira que Pequim revelou, e é claro que o mundo está bem próximo de gozar de novos graus de liberdade econômica.


Futuros de petróleo em yuan chineses


Segundo artigo publicado na revista asiática Japan Nikkei, a China está perto de lançar um contrato futuro de petróleo denominado em yuan chineses que poderá ser convertido em ouro. Isso, se combinado com outros movimentos da China ao longo dos dois últimos anos, para tornar viável uma alternativa a Londres e New York, para Xangai, torna-se realmente interessante.

China é o maior importador de petróleo do mundo, a vasta maioria de cujos negócios ainda são pagos em dólares norte-americanos. Se o novo contrato futuro de petróleo for amplamente aceito, poderá tornar-se o mais importante referencial para petróleo com base na Ásia, uma vez que a China é o maior importador de petróleo do mundo. Esse movimento desafiaria os dois contratos de petróleo dominados por Wall Street, o Brent do Mar do Norte e os futuros de West Texas Intermediate, os quais até agora deram imensas vantagens ocultas a Wall Street.

Com isso a China e seus parceiros eliminariam um dos grandes meios para manipulação, incluindo muito especialmente a Rússia. A introdução de contratos futuros de petróleo negociados em Xangai em yuan, recentemente incluídos na cesta de seletas moedas SDR do FMI, os futuros de petróleo, especialmente quando possam ser convertidos em ouro, podem mudar dramaticamente o equilíbrio geopolítico do poder, desviando-o, do mundo Atlântico, para a Eurásia.

Em abril de 2016, a China completou grande movimento para se tornar novo centro do câmbio de ouro e centro mundial do comércio do ouro físico. A China é hoje a maior produtora mundial de ouro, muito à frente da África do Sul, com a Rússia em segundo lugar.

A China já estabeleceu grande centro de armazenamento na Zona Franca de Qianhai na China, próxima de Shenzhen, cidade de cerca de 18 milhões de habitantes ao norte, próxima de Hong Kong, no Delta do Rio Pérola. Agora a China está completando a construção de um prédio-cofre para ouro, incluindo armazém, bolsa para negociações e escritórios para áreas relacionadas. A Sociedade Chinesa de Câmbio de Ouro e Prata, existente há 105 anos e com sede em Hong Kong está num projeto conjunto com o banco ICBC, o maior banco estatal chinês e maior banco de importação de ouro, para criar o Qianhai Centro de Armazenamento. Começa a ficar perfeitamente claro o motivo pelo qual as falsas ONGs a serviço de Washington, como a National Endowment for Democracy tanto tentou, sem sucesso, criar uma Revolução Colorida anti-Pequim, a "Revolução Guarda-Chuva", em Hong Kong, no final de 2014.

Agora, somando-se aos novos contratos futuros de petróleo negociados na China em yuan, com o lastro em ouro, levará a mudança dramática nos países que são membros chaves da OPEP, mesmo no Oriente Médio. Claro que preferirão o yuan lastreado em ouro, em vez dos dólares norte-americanos hiper inflados, que carregam grave risco geopolítico, como o Qatar aprendeu, depois da visita de Trump a Riad, há alguns meses. Importante, a gigante estatal russa Rosneft acaba de anunciar que a estatal chinesa do petróleo, CEFC China Energy Company Ltd., acaba de comprar a participação de 14% que o Qatar tinha na Rosneft. Tudo começa a se encaixar, numa estratégia muito coerente.

O império do dólar está em dolorosa agonia, e seus patriarcas entraram em processo de negar a realidade, processo também conhecido como "governo Trump". Enquanto isso, os elementos mais sãos desse planeta estão bem próximos de montar alternativas construtivas e pacíficas. Estão dispostos até a acolher Washington em seu grupo, sob regras justas. Muita generosidade não é mesmo?!...




* Desde o golpe, o Brasil deixou de contar como parceiro comercial de quem quer que seja, porque voltou à condição degradada de estado-vassalo dos EUA. Por isso, doravante, não mais falaremos de BRICS, que já não existem, mas só de RICS, sem Brasil [NTs].

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Receita para fazer uma Revolução Popular Híbrida (RPH)




“Primaveras”, “levantes”, “jornadas”, “protestos”, não importa o nome. Egito, Ucrânia, Síria, Brasil: em todos eles, a mídia corporativa viu os acontecimentos sob a narrativa do “espontâneo”, do “novo”, da “renovação na política”. E sempre pelo mesmo viés: a “velha política” não conseguiria dar mais conta das insatisfações, principalmente dos jovens. O roteiro de todas essas “primaveras” é praticamente idêntico (ONGs e fundações educacionais dando apoio financeiro e operacional, jovens lideranças formadas em universidades dos EUA, faixas e cartazes em inglês, vítimas em manifestações principalmente femininas, vazamentos oportunos do Wikileaks etc.) sugerindo algo como uma receita de bolo com ingredientes bem definidos. Propaganda, branding management, técnicas avançadas de psicologia de massas fermentam toda essa “espontaneidade” com objetivos geopolíticos bem definido contra o governo-alvo. Mas não conte para a esquerda – afinal, tudo não passa de “teorias conspiratórias”.


por Wilson Roberto Vieira Ferreira, no ótimo Cinema Secreto Cinegnose

Em uma sequência do filme MIB – Homens de Preto, o agente Kevin (Tommy Lee Jones) introduz o novo agente James (Will Smith) na Organização. Kevin para em uma banca de jornais e folheia um tabloide sensacionalista. “Vamos ver os relatórios”, diz diante do incrédulo agente James. Percebendo a estranheza do pupilo, Kevin explica: “são as melhores fontes do planeta... às vezes também se encontra algo no New York Times”.

Tão previsível e clichê como o último atentado em Barcelona (sempre com a mesma narrativa ao mesmo tempo fatal e enfadonha que caracterizam os “não-acontecimentos”, “false flags” e “inside jobs”) são também as “revoltas populares” ou “primaveras” que nos últimos anos pipocaram em países como Jordânia (2013), Egito (2013), Ucrânia (2014), Georgia (2003), Hong Kong (2014), Síria (2012), Tunísia (2010), Líbia (2011) e, finalmente, Brasil (2013-16).

O modelo desses “levantes populares” de protestos desse século estão lá no século passado como a “Primavera de Praga” na Checoslováquia em 1968 ou a chamada “Revolução de Veludo” no Leste Europeu em 1989.

Previsíveis e com uma narrativa tão fixa e recorrente que falar sobre isso sempre faz o locutor ser rotulado de “sensacionalista” ou “teórico da conspiração”. Mas, principalmente as esquerdas, deveriam seguir o conselho do agente Kevin: há mais verdades nas maquinações conspiratórias e sensacionalistas do que na séria Ciência Política.

“Primaveras”, “levantes”, “jornadas”, “protestos”, não importa o nome. Em todos eles, sempre a cobertura midiática relata os acontecimentos sob a narrativa do “espontâneo”, do “novo”, da “renovação na política” ou, como no recente giro de “primaveras” pelo planeta, do papel das novas tecnologias digitais (redes sociais e dispositivos móveis) nesse processo. E sempre com o mesmo viés: a “velha política” supostamente não conseguiria dar mais conta das insatisfações, principalmente dos jovens.


A cilada do “novo”


E as esquerdas e intelectuais acabam sempre caindo nessa cilada do “novo”. Por exemplo, durante as “jornadas de junho” em 2013 esse humilde blogueiro assistia, incrédulo, professores da ECA/USP rumando para a Avenida Paulista para sentir, de dentro das manifestações, o irromper do “novo” na política brasileira, que a supostamente carcomida política tradicional não conseguiria enxergar.

Por isso, as esquerdas parecem evitar discutir esse assunto: uma guerra híbrida da geopolítica dos EUA por trás das “primaveras”? Isso é “teoria conspiratória!”, “sensacionalismo!”, teme a esquerda, talvez preocupada em ser levada à sério para ganhar espaço em colunas e entrevistas na mídia corporativa e não ser confundida com "chavistas" ou "bolivarianos".

E toca a fazer “autocrítica” dos supostos “erros de avaliação” por não ter dado “respostas” ou informações “na hora certa” para a opinião pública.

Agentes políticos surgem do nada, em geral vindos de alguma universidade norte-americana e turbinados por alguma ONG ou fundação financiada por algum empresário brasileiro com preocupações na área da “educação”. Enquanto isso, a esquerda ou patina nas incansáveis auto-avaliações (lembrando as impagáveis sequências das reuniões da inerte e burocrática Frente de Libertação contra a dominação romana do filme A Vida de Brian do grupo Monty Python) ou joga fora jovens lideranças com origens na própria esquerda.

Então, esse Cinegnose (blog original deste texto) vai dar uma humilde e didática contribuição descrevendo uma receita para criar o bolo das revoluções populares híbridas, diretamente inspirada nas chamadas “teorias da conspiração”.

Se o agente Kevin estiver correto, as melhores fontes de informações do planeta estão nos tabloides sensacionalistas... mas não conte para a esquerda!...


ENTÃO AQUI ESTÁ A RECEITA DETALHADA

Ingredientes:
  • Toneladas de dólares da CIA, MI6 e/ou George Soros e/ou irmão Koch
  • Empresários nacionais financiadores de Fundações, principalmente em áreas de Educação e Meio Ambiente
  • Grupos nacionais de defesa de “Direitos Humanos” ou “Pró-Democracia”
  • Jovens universitários idealistas e aspirantes libertários facilmente manipuláveis
  • Faixas profissionalmente confeccionadas e escritas em inglês
  • Agentes provocadores violentos para ação direta – black blocs ou policiais infiltrados (P2)
  • Jornalistas corrompíveis ou chantageáveis
  • Políticos corrompíveis ou chantageáveis
  • Acadêmicos corrompíveis ou chantageáveis
Modo de preparar:

Passo 1


Despachar agentes da CIA, de ONGs turbinadas por George Soros e/ou irmãos Koch para a nação alvo. Eles poderão facilmente se passar como estudantes de intercâmbio, turista, ativista comunitário, jornalista, empresário, diplomata. O que importa é ser criativo.

Passo 2


Inicie ONGs no país-alvo. Use pretextos humanitários como “Pró-Democracia”, “Direitos Humanos”, “transparência” ou “Liberdade de Informação”. Contate empresários brasileiros que financiam fundações, principalmente na área educacional. Aquelas organizações com ideais altruístas como “formar gente boa que capacita jovens para mudar o Brasil” ou “comprometida em formar líderes no País”.

Baixando do céu das boas intenções e colocando em prática na Terra, essas organizações tornam-se úteis para ter em mão aqueles “jovens idealistas” (vide ingredientes) no bolo final da Revolução Popular Híbrida. Essas organizações acabam dando cobertura para descontentes locais e idealistas ingênuos.

Passo 3

Recrutar a rede de traidores nacionais – alvos intelectuais, políticos e acadêmicos e, se possível, militares. Suborno é uma boa maneira para formar essa rede. Se não for suficiente, chantagear aqueles que têm alguma mancha na sua vida privada ou profissional é a solução mais drástica.

Agora estamos prontos para começar a cozinhar!...

Passo 4

Escolha um nome cativante ou cor para sua Revolução Popular Híbrida (RPH). Revolução Laranja (Ucrânia), Primavera Árabe (Egito, Tunísia, Líbia, Síria), Umbrella Revolution (Hong Kong), Revolução Verde (Irã). No Brasil tivemos uma interessante combinação de temas: “Jornadas de Junho” ou “Manifestações dos 20 centavos”.

Faça um verbete na Wikipedia sobre o tema e crie perfis nas redes sociais. Revolução é uma questão de marketing.

Passo 5

Lance sua revolução como um “protesto espontâneo”. Use aqueles agentes da CIA (aqueles sob identidade de “estudantes de intercâmbio”, “jornalistas” etc.) e os ativistas e “novos líderes” das ONGs.

Proteste contra alguma coisa do tipo “violações de direitos humanos”, “fraude eleitoral”, “governo corrupto” ou “Saúde e Educação Padrão FIFA”. Pouco importa se as alegações são verdadeiras. O que importa é criar paixões, polarizações e o inevitável efeito de manada.

Nesse momento descobrirá a importância daquelas fundações educacionais que formam “líderes para o futuro”: por exemplo, no Brasil a Fundação Estudar, criada pelo empresário Jorge Paulo Lemann, financiou e deu apoio operacional ao Movimento Vem Pra Rua.

Passo 5.1. (opcional)

Em certos casos Wikileaks pode dar uma ajuda a sua RPH através de “vazamentos” de segredos embaraçosos sobre personagens-chave dentro do governo-alvo.

No caso do Brasil, a “Carta Aberta ao Povo Brasileiro” do funcionário dissidente da NSA, Edward Snowden, denunciando que a agência dos EUA teria espionado e-mails da presidenta Dilma e Petrobrás só aumentou a temperatura da fritura do governo-alvo: virou prova da fraqueza de uma presidenta à beira do abismo.

Passo 6

Estenda suas faixas “espontâneas” e cartazes de protesto escritas em inglês nas manifestações. Afinal, é necessário ganhar a simpatia da opinião pública internacional e, principalmente, dos políticos norte-americanos.

Passo 7

Adicione aos seus agentes e líderes políticos em tempo integral que, a essa altura, já ganharam espaço na mídia corporativa (alguns até ganharão coluna fixa em jornais e internet), acadêmicos e universitários aspirantes a uma geração globalizada e “antenada”.

Isso vai engrossar a fileira de manifestantes, incluindo descontentes, pessoas com queixas legítimas, desinformados que acabam seguindo a manada ou simplesmente gente entediada que não tem coisa melhor para fazer.

Passo 8

A essa altura a grande mídia norte-americana e europeia já está retratando a sua RPH como “popular”, “espontânea” e “renovação política” . Uma reação natural à tirania, ditadura, corrupção ou fraude do governo-alvo.

Agora que o mundo está assistindo, encene um incidente. Se você não conseguir encontrar algum fanático que ateie fogo contra si mesmo, simule uma atrocidade. Sangue falso, gás lacrimogêneo ou simplesmente fotos encontradas na Internet. Certifique-se que a vítima seja mulher (ou melhor ainda: criança!...).

Por exemplo, no Brasil pegou bem o episódio de mulheres salvando cães beagles cobaias em um Instituto farmacêutico em São Roque/SP em 2013: mulheres de classe média salvando animaizinhos em meio a fogo e quebradeira de black blocs. Claro, para jogar a culpa no Governo e Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Ou o fusca incendiando com uma família dentro (marido, esposa e filhos) pegos “de surpresa” em uma manifestação em São Paulo. Ou ainda os “lindos olhos amendoados do anarquismo” (Caetano Veloso) das fotos de black blocs femininos, capas de revistas nacionais. Transforme black blocs em editorial de alguma revista moda feminina. Algo assim como o ensaio fotográfico da atriz Bárbara Paz.

Mas avise aos seus agentes para não olharem ou rirem para as câmeras. Como aconteceu nos atentados terroristas false flag em Berlim e Paris – em plena cena de tragédia, a câmera pegou policiais rindo e conversando descontraidamente até perceberem que estavam no enquadramento. Para de imediato ficarem em alerta e correr para algum lugar apontando armas.

Ou o caso da iraniana Neda Agha-Soltan (intitulada pela grande mídia “o anjo da liberdade”) checando o ângulo da câmera enquanto aplicava sangue falso em si mesma.

Blogueiras que inacreditavelmente conseguem wi-fi no meio de uma guerra civil como na Síria ou num país supostamente isolado como Cuba, também cai bem.

Passo 9

Se, mesmo assim, tudo isso não der certo você poderá contar com o levante de alguma armada rebelde ou ainda a ameaça de sanções econômicas ou de “zona de exclusão aérea” imposta pelos EUA, ONU ou União Europeia. Até convencer ou derrubar um governo contrário a agenda geopolítica dos globalistas.

Mas, claro, tudo isso não passa de “teoria da conspiração”... mas não conte para esquerda. Eles não entenderão mesmo...

terça-feira, 4 de julho de 2017

The Walking Dead: A maldição da semiótica política e do jornalismo



henry Henkels


A política tardiamente descobriu que não passa de uma nulidade, que o poder não mais existe, pelo menos como um locus - uma nobreza, um palácio, um congresso, um tribunal ou coisa que valha - um espaço a ser preenchido por um grupamento social ou uma classe. O poder real migrou definitivamente para a banca financeira transnacional, na gestão automática e algorítmica do capitalismo especulativo e rentista, com seus planejados ciclos de crise e prosperidade.

Através de construção de narrativas e marketing, partidos políticos simulam diferenças entre si, fazem paródia do velho espectro (de esquerda x direita, comunismo x capitalismo, etc.) e vivem do escândalo, da denúncia e do moralismo para se por em um movimento walking-dead de um sistema zumbi.

O jornalismo tradicional, igualmente decrépito e decadente, acha que é uma peça essencial nessa simulação errática: hoje se equilibra numa estrutura de escândalos e denúncias que são sistemática e seletivamente vazados segundo uma agenda política que tenta esconder essa  nulidade de si mesmos: os próprios, a politica e o jornalismo em si.

Porém, assim como o subsistema da política, o jornalismo procura simular racionalidade e utilidade para justificar a própria existência. Isto é, simular a finalidade original à qual o jornalismo supostamente serviria, de informar a sociedade, investigar, enfrentar os poderosos, mas no fim acaba indo onde os poderes decadentes deles próprios tentam cerceá-lo: a verdade.

Assim caminhamos: Ó tempora!... Ó mores!...

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Fracking NÃO!... mas o que ser isso?...




por Bianca Diele da Silva, no Heinrich Böll Stiftung Brasil



A questão da água no Brasil tem se tornado central nas discussões atuais. Como um país que possui 12% de toda a reserva de água doce do mundo pode estar exposto a um cenário de escassez? O caso da redução de chuvas na região sudeste foi apontado pelos gestores como um fato que desencadeou a redução drástica nos níveis dos reservatórios. No entanto, pouco se falou sobre o desmatamento das bacias hidrográficas, da poluição derramada todos os dias nos nossos rios inviabilizando seu uso para abastecimento humano ou do uso e desperdício dos setores agrícolas e industriais. Um exemplo desses outros graves fatores que contribuem para a escassez de água é o crime de Mariana, que deixou municípios inteiros sem este recurso.

Será que estamos aprendendo com isso?

Não é só o setor minerário, responsável pelo desastre de Mariana, que oferece riscos a oferta de água no país.

Com as recentes descobertas e início de exploração do pré-sal, o Brasil tem aprofundado a dependência das fontes fósseis de energia como projeto de desenvolvimento. Em setembro de 2013, a Agência Nacional de Petróleo (ANP) anunciou a 13ª rodada de concessão de lotes para a exploração de gás natural de fontes não convencionais. Dentre estas fontes não convencionais está o gás de folhelho, popularmente conhecido como gás de “xisto”.

Para a exploração deste gás é utilizada uma técnica chamada de faturamento hidráulico de alta pressão, ou fracking, que utiliza quantidades enormes de água e gera um volume grande de efluentes. Estes efluentes possuem uma mistura de produtos químicos altamente tóxicos, areia, além de materiais radioativos carreados do subsolo. Isto, por si só, já seria um problema considerável, mas some-se o fato de que as fraturas podem alcançar corpos de água subterrâneos como os aqüíferos, contaminando-os com esta mistura.

Os Estados Unidos foram os precursores no uso comercial desta técnica. Por isso, em setembro de 2015, a Fundação Heinrich Böll, em parceria com outras organizações, realizou, naquele país, a Fracking Tour, cujo objetivo foi conhecer as áreas já exploradas através desta técnica e saber como a polêmica extração de petróleo tem envolvido os movimentos ambientalistas e de direitos humanos. Participaram da atividade países que já possuem áreas de extração via fracking como Argentina e México, bem como aqueles que vêm sofrendo pressões para iniciá-las, como Brasil, África do Sul, China, Irlanda, Alemanha e Chile. E eu fui convidada a participar desta atividade como representante brasileira nas discussões.

Nos Estados Unidos, graças ao lobby desta indústria, os empreendimentos que se utilizam desta técnica não precisam se enquadrar nos marcos regulatórios ambientais que protegem os recursos hídricos e o ar. Conseqüentemente, os poços de água potável das habitações próximas aos locais de exploração foram contaminados sem as devidas medidas de controle e mitigação. Durante a atividade foram visitadas algumas casas na zona rural do estado da Pensilvânia, onde além dos poços contaminados, registraram-se relatos de animais que morreram por terem bebido a água e de pessoas com problemas respiratórios e de pele, com medo de terem sido contaminadas. Os profissionais de saúde não têm acesso a informações sobre as composições dos fluidos que estão impactando na saúde dos residentes.

A atividade da exploração, que se intensificou consideravelmente nos últimos dez anos, não atingiu só o meio ambiente, mas também a saúde das pessoas, os seus modos de vida e a relação entre os indivíduos e as instituições governamentais que deveriam garantir o seu direito a um ambiente saudável. Alguns moradores que resolveram denunciar esta situação sofrem represálias da indústria como processos judiciais e intimidações. Para um país orgulhoso de sua democracia e liberdade de expressão, isto é um retrocesso.

Deixamos esta região com a certeza que os impactos são muito maiores do que os descritos nos artigos, e que o acordo entre a indústria e o governo para o avanço do uso desta tecnologia sem os devidos controles foi muito danosa para a sociedade como um todo. Não foi à toa que, no Brasil, os cientistas solicitaram que mais estudos fossem realizados para avaliar os impactos potenciais antes da aprovação do uso do fracking. Mesmo assim o governo Dilma liberou o leilão e ainda fez uma regulamentação (ANP 21/2014) sobre o tema que deixa os corpos d’água ainda mais expostos pela adoção de parâmetros aleatórios de controle de linha de base da qualidade da água, que não condizem com a composição dos fluidos utilizados.

Mas nem tudo está perdido. Na segunda parte da nossa visita pudemos conhecer como o estado de Nova Iorque, onde também há reservas de gás de “xisto”, baniu a utilização desta técnica baseado em estudos científicos que contaram com uma avaliação criteriosa de profissionais ambientais e de saúde. Muitas organizações ambientalistas, de saúde e de direitos humanos conseguiram levar a discussão para a população, sensibilizando-a para a importância de não repetir o que estava acontecendo no estado vizinho.

Foi uma mobilização longa que começou com discussões, depois pela definição de uma moratória até que mais estudos e mais dados fossem analisados, e finalmente pelo banimento em junho deste ano. Na ocasião da nossa visita, em setembro, o movimento contra o fracking da região estava feliz e aliviado, mas continuavam atentos nos desafios de se manter o banimento e de ampliar esta discussão para que ninguém tenha que ser exposto aos riscos; inclusive os países que vem sofrendo pressões para aderir a essa prática ou que, como no caso do México e da Argentina, já possuem campos de exploração deste tipo.

A troca e atualização das informações foi essencial para o entendimento da importância das resistências a esta nova ameaça e de como podemos fomentar a discussão nos nossos países. Também é importante fortalecer as estratégias comuns já existentes, como no caso da “Alianza Latinoamericana Frente al Fracking”. Na América Latina, descobrimos que temos muito em comum, tanto na forma que os governos estão atuando para a introdução do fracking por meio de um discurso que minimiza os riscos e supervaloriza os benefícios, como por um anseio das populações dos territórios atingidos e ameaçados por respeito ao seu direito de dizer não.
As questões da água são centrais nesta disputa. No Brasil esta já adentrou o campo jurídico por meio de várias ações civis públicas, e algumas delas conseguiram a suspensão do plano de iniciar o uso do fracking em algumas bacias. Além disso, iniciou-se um movimento dos municípios com a declaração de municípios Livres de fracking. Além disso, iniciou-se um movimento dos municípios com a declaração de municípios Livres de fracking como Toledo e Cascavel no Paraná.

Sabemos que esta será uma luta longa e que temos que trabalhar para a ampliação da discussão com a sociedade como um todo, mas acreditamos que o povo brasileiro, que sempre valorizou e cultivou suas águas saberá tomar a melhor decisão sobre esta questão se lhe for dado este direito.

Para quê um país com tanto potencial para energias renováveis optaria por uma tecnologia tão controversa? Com a descoberta e exploração do pré-sal, devemos ampliar ainda mais a nossa dependência de fontes fósseis de energia? Se temos que mudar, como já foi tantas vezes repetidos pelos especialistas do clima, por que não começamos agora? Por que colocar os nossos aquíferos que estão entre os maiores e de melhor qualidade do mundo em risco?

Por que ampliar os conflitos de água com a inclusão de mais uma indústria de uso intensivo de água e com alto potencial poluidor? Pela segurança das nossas águas e das nossas vidas, fracking não.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Ninguém fala sobre isso em Banânia: Rússia contra a OTAN


por J. Carlos de Assis, no blog do Nassif

Os problemas brasileiros tornaram-se tão graves nos últimos tempos que corremos o risco de não ver nenhum deles resolvido antes que um tsunami internacional, uma guerra da Rússia contra a OTAN, inicialmente em solo ucraniano, nos envolva em terríveis desafios externos. Na eventualidade dessa guerra podemos ser atingidos de diferentes formas, a mais elementar delas sendo os Estados Unidos impondo um embargo total contra os russos, o que nos afetaria diretamente. No caso das proteínas, isso seria grandemente facilitado pela JBS, o maior produtor e exportador mundial, agora plantada em território norte-americano.

A grande imprensa brasileira praticamente não acompanha ou dá notícias sobre essa crise. Os principais correspondentes de televisão estão baseados em Nova Iorque. Refletem o que noticia a imprensa norte-americana padrão, enquanto a imprensa norte-americana padrão dá a exata versão de propaganda do Departamento de Estado. Foi assim quando o que chamam de Massacre da Praça da Paz Celestial, em Pequim, foi apresentado como massacre de milhares de jovens, quando a contabilidade final (Foreign Affairs) não apontou um único morto. Entretanto a imprensa padrão, lá e cá, ainda fala em massacre.

Na guerra potencial entre Estado Unidos e Rússia, os jornalistas brasileiros, por razões estranhas, tomaram o lado dos russos – não obstante os russos serem nossos parceiros no BRICS. Quando a Crimeia, por vontade de seus cidadãos, decidiu re-anexar-se à Rússia, tivemos uma espécie de coro grego da imprensa brasileira acompanhando a posição absolutamente hipócrita do Departamento de Estado, acusando a Rússia de expansionista e lhe impondo sanções. Nossa imprensa (deles) ignorou o golpe de Estado na Ucrânia patrocinado pelo Departamento de Estado e por ONGs ativistas, aceitando sem reclamar a presença de nazistas no novo Governo.

É de um nazista ucraniano, presidente do Parlamento, que parte a maior ameaça à paz na região. Ele fez aprovar uma resolução pela incorporação da Ucrânia à OTAN. Isso é inaceitável pela Rússia. Os estrategistas russos aceitaram a expansão da OTAN para o leste, engolindo doze países antes integrados à antiga União Soviética, mas deixaram claro que não aceitariam fortalezas da OTAN na Geórgia e mu8itop menos na Ucrânia, eventualmente integradas à OTAN, logo nas suas costas. Entretanto, as ameaças e provocações da OTAN nunca cessaram, a ponto de que Putin advertiu claramente a Obama: Se a Ucrânia integrar-se à OTAN ela desaparecerá como país.

Trump não é Obama, mas Putin continua sendo Putin. A tropa neoconservadora belicista em torno de Trump, herdada de Obama e Bush, provavelmente vai escalar nas provocações contra a Rússia, mas não é fácil enfrentar o que um ex-coronel do Estado Maior americano classificou como uma força militar absolutamente imbatível em terra. Os estrategistas europeus, também eles provocadores enquanto integrados à OTAN, terão de fazer seus cálculos. Se insistirem nessa aventura desnecessária – expandir a OTAN até a Ucrânia em nada acrescenta à segurança europeia, ao contrário -, o mundo pagará um preço, mas a Europa pagará preço maior.

Por que estou escrevendo sobre isso? Preferia falar sobre economia política. Entretanto, o leitor brasileiro merece mais que os press-release do Departamento de Estado antes que chegue o Armagedon provocado exclusivamente pelos Estados Unidos. Além do mais, trata-se de uma contribuição, ínfima que seja, para que a parte da opinião mundial que representamos possa constituir um pequeno passo de mobilização contra a guerra iminente.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Empresas familiares - ninho de encrencas





por Caio Eduardo de Aguirre, no blog do Nassif




Empresas familiares são aquelas cujo poder de controle está nas mãos de uma ou mais famílias. Representam, no Brasil, o expressivo percentual de 90% das empresas. Pelo mundo afora também são imensa maioria, com participação significativa no PIB mundial.

Aquelas que já passaram por processo de profissionalização são extremamente competitivas e até mais rentáveis do que as empresas não familiares. Todavia, a vida da maioria das empresas familiares não costuma ser longa. Estima-se que apenas 5% delas cheguem à terceira geração, sendo que 65% encerram suas atividades por conta de conflitos entre os sócios parentes. Esse último dado é extremamente relevante e faz do conflito um protagonista importante e merecedor de cuidados especiais.

O conflito entre sócios parentes costuma, na maioria das vezes, ser foco de atenção somente após sua eclosão, quando então será tratado da forma tradicional: ou solucionado, dentro do ambiente corporativo, por imposição do hierarquicamente superior ou submetido a processo judicial, se o caso.

Brigas judiciais homéricas entre familiares são frequentes em qualquer comarca, expondo quase sempre a imagem das empresas e a intimidade da família. Essa situação, além de esgarçar de vez as relações entre os familiares, ao contrário de solucionar o conflito, torna-o ainda maior. Com a briga judicial as desavenças aumentam, até pela necessidade de que uma parte reforce, e prove, os argumentos da tese que expôs no processo.

Além disso, a disputa acarreta prejuízos financeiros, e sobretudo emocionais, de lado a lado. Em alguns casos, sócios são afastados da administração e em situações mais críticas chegam a ter a distribuição de lucros suspensa. Proferida a sentença, é difícil que as partes com ela se conformem e a cumpram espontaneamente. Pelo contrário, o roteiro comum é a interposição de infindáveis recursos que conduzem a briga para as instâncias superiores dos Tribunais.

E isso se dá pelo “simples” motivo de que o processo judicial não aborda as verdadeiras causas do conflito. O Juiz decide, até porque assim determina a lei, de acordo com o que lhe é pedido. Contudo, os contendores não expõem ao julgador a origem do problema, as discórdias antigas, a falta de comunicação, até mesmo porque nem eles próprios têm clareza quanto a isso, já que o conflito é processo construído ao longo do tempo e a falha de comunicação acaba mascarando suas verdadeiras razões.

O fato é que com os processos judicias a briga se prolonga, a imagem e a gestão da empresa são comprometidas e os investidores se afastam.

Relegar o conflito para segundo plano ou considerar o Judiciário como única forma de solucioná-lo faz parte de uma visão ainda vigente mas que, felizmente, começa a mudar.

MEDIAÇÃO COMO OPÇÃO

Nesse contexto, a gestão preventiva de conflitos através da mediação empresarial familiar aparece como uma das opções mais úteis para tratar a questão.

A mediação poderá ser utilizada “apenas” para facilitar a conversação dentro do ambiente corporativo, tanto entre sócios parentes como entre os demais atores da empresa e antes mesmo que o conflito venha à tona e mostre apenas seus efeitos deletérios. Isso facilitará a comunicação e o alinhamento de interesses, tornando a briga judicial mais improvável. Somente o lado positivo e construtivo do conflito é que virá à tona.

Já depois da eclosão do conflito, a mediação também será extremamente útil como método facilitador da construção de acordo, o que pode ocorrer antes mesmo da submissão do problema aos tribunais.

No ambiente empresarial familiar pode-se mencionar como vantagens da mediação: (i) o menor custo financeiro e emocional; (ii) menor potencial para agravamento do conflito e rompimento de relações; (iii) confidencialidade, e: (iv) ingerência do procedimento e do resultado obtido, o que afasta a surpresa das decisões judiciais.

MEDIAÇÃO COMO INDICADOR DE BOA GOVERNANÇA – CONFLITO LEVADO À SÉRIO


A utilização da mediação no ambiente corporativo é um indicador de que a empresa tem boa governança.

O Código de Melhores Prática de Governança Corporativa do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) recomenda que as empresas utilizem a mediação para a solução de controvérsias.

Dispõe seu artigo 1.4, “a”, que: “Os conflitos entre sócios, administradores e entre esses e a organização deve, preferencialmente, ser resolvidos mediante a negociação entre as partes. Caso isso não seja possível, recomenda-se que sejam resolvidos por meio da mediação/arbitragem. É recomendável a inclusão desses mecanismos no estatuto/contrato social ou em compromisso a ser firmado entre as partes”.

Isso é claro indicativo de que, como se afirmou, o tema dos conflitos tende a ser objeto de tratamento especial pelas empresas. Uma empresa, especialmente a familiar, que tenha política séria para trabalhar os conflitos, será detentora de boa governança, fato que, somado a outras boas posturas gerenciais, como a transparência, a alçara para um patamar mais profissional e contribuirá para dissipar inseguranças por parte de investidores atentos ao potencial destrutivo dos conflitos entre sócios parentes.

O MEDIADOR

Em síntese, o mediador é um profissional facilitador do diálogo e, em regra, não emite parecer sobre a disputa.

Não se trata daquela pessoa próxima da família ou da empresa que sempre foi conhecida pelo bom senso e pela postura conciliadora, mas sim de profissional devidamente formado por instituições gabaritadas que ministram treinamento adequado.

Considerando-se que não há um órgão ou instituição que disponibilize cadastro de mediadores privados[1], a escolha desse profissional ainda se faz através de referências do mercado.

Outra boa opção são as Câmaras de Mediação. Essas instituições privadas têm mediadores cadastrados e previamente selecionados, administrando o procedimento e fornecendo toda a estrutura o seu desenvolvimento.

Enfim, sendo a mediação um dos métodos disponíveis para os empresários, especialmente os que enfrentam o diário desafio de conciliar família e empresa, seu uso deve ser sempre uma opção concreta a ser considerada, sobretudo antes de apressadamente buscar socorro junto ao Poder Judiciário.